Há muito que fez as pazes, as palavras de desculpa foram ditas, mas o seu corpo recusa-se a esquecer.
O ombro dele ainda fica tenso quando lhe estendes a mão e o teu olhar passa involuntariamente pelo rosto dele enquanto falas, relata .
A psicossomática relacional não é uma metáfora, mas uma realidade fisiológica que não pode ser enganada por palavras. O nosso corpo é um cronista honesto de todas as micro-lesões e queixas não ditas.
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A hormona do stress cortisol, libertada durante um conflito, altera literalmente o tónus muscular e os padrões de respiração. Se a reconciliação foi formalizada e o cerne do problema não foi resolvido, o corpo permanece em alerta, impedindo o regresso da verdadeira intimidade.
Isto manifesta-se em pequenas coisas: afastam-se involuntariamente no sofá para evitar tocar-se; os abraços tornam-se curtos e secos, como um aperto de mão; durante o sono, viram as costas um para o outro, criando literalmente uma parede. O vosso corpo diz o que a vossa língua se recusa a dizer: “Ainda estou a sofrer e não confio em ti”.
Os especialistas em terapia centrada no corpo aconselham que a cura comece não com novas conversas, mas com práticas silenciosas de restabelecimento do contacto. Ioga em conjunto, longos passeios à mão, simples massagens aos ombros – tudo o que ajude o sistema nervoso a voltar a associar a presença do parceiro à segurança e não à ameaça.
Faça uma experiência: durante um momento de silêncio, coloque simplesmente a sua mão no braço do seu parceiro e tente concentrar-se na sensação de calor e não no fluxo de pensamentos. Isto ajuda a desviar a sua atenção da cabeça, onde vivem os velhos ressentimentos, para o seu corpo, que existe apenas no momento presente.
A experiência pessoal de muitos casais é que, depois de uma conversa profunda e curativa, muitas vezes apetece abraçarmo-nos em silêncio durante muito tempo. Não se trata apenas de uma emoção – é uma necessidade fisiológica de “reescrever” a memória corporal, de dar ao sistema nervoso uma nova âncora: essa pessoa é agora uma fonte de paz, não de stress.
Ignorar esta linguagem corporal conduz ao fenómeno da “reconciliação fria”. Concorda-se em palavras, mas a intimidade não regressa, a sexualidade desvanece-se.Porque não se pode dizer ao corpo para esquecer; é preciso ajudá-lo a viver uma experiência nova e positiva, mais forte do que a antiga experiência negativa. Trabalhar com o corpo requer paciência.
A tensão tem vindo a acumular-se durante meses e não se vai dissolver de um dia para o outro. Mas cada vez que escolhe conscientemente o toque suave em vez do distanciamento, está a construir uma nova ponte.
Está a provar ao seu corpo e ao corpo do seu parceiro que o aqui e agora é seguro. Em última análise, a confiança não é apenas uma decisão mental, mas um estado de todo o ser.
Quando os vossos corpos finalmente relaxam um no outro, apercebem-se que o verdadeiro perdão aconteceu. Ele não vive na memória, mas no bater tranquilo de dois corações que encontraram um ritmo comum.
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