Numa época em que a linha que separa o companheirismo do interesse romântico se apagou nos messengers e nas redes sociais, a questão “até onde vai a linha?” tornou-se uma das mais dolorosas para os casais.
Para algumas pessoas, gostar de uma foto do ex já é uma traição, enquanto para outras, uma correspondência franca com um colega ainda não é motivo de escândalo, segundo um correspondente do .
O flirt e a traição já não são conceitos do dicionário do século passado, tendo-se transformado num território movediço onde cada um define as suas próprias regras, muitas vezes a posteriori. O flirt é um jogo, uma troca de energia fácil, muitas vezes inconsciente, que raramente tem um objetivo específico de “conquistar” uma pessoa.
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Esta é uma forma de se sentir atraente, de obter uma parte da atenção, de desanuviar a situação. Vive no plano do possível, do hipotético e, na maioria das vezes, não ameaça a estabilidade da relação principal, porque não envolve acções reais.
É como folhear um catálogo de carros caros sem ter o dinheiro ou a intenção de os comprar. A traição já é uma ação, uma violação de acordos, um passo real para além dos limites estabelecidos pelo casal.
Se o flirt é uma linguagem, a traição é um ato escrito nessa linguagem. A diferença fundamental é o secretismo e a intencionalidade.
Se tiver de esconder correspondência, apagar o seu histórico de mensagens ou mentir sobre quem e com quem tem estado a comunicar, já não está na zona do flirt inocente, mas no território da batota. A era digital complicou a situação ao ponto de a tornar impossível.
A infidelidade emocional – correspondência longa e profunda sobre assuntos pessoais, procurando apoio e compreensão à parte – pode magoar mais do que um único contacto físico. Cria uma realidade paralela em que o seu parceiro partilha os seus sentimentos mais íntimos com outra pessoa, deixando-o fora da sua vida emocional.
Onde está o flirt e onde já está a traição? Na maioria das vezes, o limite é o nível de intimidade e de secretismo.
Os especialistas concordam numa coisa: a única forma de evitar tragédias é chegar a acordo sobre as regras do jogo com antecedência. O que é aceitável e o que é tabu para o seu casal?É aceitável elogiar os colegas? É aceitável enviar mensagens de texto a ex-namorados? O que é que ambos pensam atravessar a linha? Esta conversa é desagradável, mas é a única alternativa a futuros escândalos do género “pensei que não era nada”.
O teste é simples: pergunte a si próprio se se sentiria confortável se o seu parceiro lesse esta correspondência ou testemunhasse esta conversa. Se a resposta for “não” e sentir vontade de esconder o telemóvel, então, intuitivamente, já sabe que ultrapassou um limite interno. A sua consciência é o melhor detetor.
Em última análise, as relações saudáveis não são mortas pelo simples facto de o seu parceiro ter sorrido a alguém ou ter recebido um elogio. O que as mata são as mentiras, o secretismo e o desrespeito pelas regras estabelecidas.
O flirt torna-se perigoso não quando acontece, mas quando se começa a escondê-lo da pessoa com quem se partilha a vida. E é aí que deixa de ser um jogo e se transforma numa arma que um dia vos matará aos dois.
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